Comunicação Não Violenta: um exercício de Empatia

Quando fui convidado a desenhar e facilitar um treinamento sobre Comunicação Não Violenta para um cliente, fiquei curioso para saber como este tema seria recebido pelos participantes. Afinal, o nome ‘Comunicação Não Violenta’ pode sugerir que se trata de uma técnica de comunicação voltada para pessoas que se expressam de forma violenta, por meio de palavras ríspidas, tons de voz ameaçadores ou linguagem não-verbal intimidadora. Neste sentido, a simples oferta de um treinamento com este tema poderia instigar pensamentos como: “Isto não é para mim. Minha comunicação não é violenta!”. Bom, depois de facilitar vários destes workshops posso afirmar com segurança: definitivamente não estamos falando deste tipo de violência. Estamos falando de algo muito mais sutil, mas nem por isto menos violento.

Mesmo sem intenção, muitas vezes nossa comunicação é violenta

A Comunicação Não Violenta foi o termo cunhado pelo Psicólogo americano Marshall Rosenberg, na sua busca por promover um contraponto àquilo que ele chamou de “Linguagem de Dominação”. Segundo Marshall, o mundo vem se desenvolvendo ao longo dos séculos por meio do uso de uma Linguagem de Dominação. Na opinião dele, esta linguagem é impregnada por alguns aspectos violentos. São eles:

  • Julgamentos: a linguagem que a humanidade vem utilizando, independentemente do idioma falado, traz inúmeras formas de julgamento. Em nossa fala, ao nos depararmos com os acontecimentos, temos uma enorme tendência de julgar as pessoas, suas ações, atitudes, posturas, comportamentos, etc. Para isto, fazemos uso intenso do verbo “ser”, dando ao mundo um caráter estático e imutável. Trata-se de uma linguagem viciada em utilizar adjetivos, rótulos, caracterizações, definições, condenações e, por fim, julgamentos. A violência reside nesta fábrica de rótulos que promove sectarismo e polarizações. Por exemplo, ao vermos alguém jogando lixo na calçada, dizemos (ou pensamos) coisas como “Nossa! Que sujeito irresponsável! Que inconsequente!”. Marshall Rosenberg afirma que “não julgar é anti-humano”. Em outras palavras, a questão principal não é o fato de estarmos constantemente julgando, mas sim o quanto estamos atentos a este fato e principalmente qual a escolha que fazemos na sequência do julgamento.

 

  • Busca por justiça: uma vez sob as garras dos pensamentos (verbalizados ou não) que julgam, somos levados a um desejo compulsivo de punir ou recompensar. Se algo é rotulado como “bom”, merece recompensa. Se é caracterizado como “ruim”, merece punição. É neste tipo de linguagem que surgem frases como “Depois que a casa fica inundada quando chove forte, fica pondo a culpa nos outros!”.

 

  • Uso do poder: ao longo de vários séculos, o poder foi exercido por meio do tratamento “justo” dado às pessoas com determinado rótulo. No extremo da violência, pode-se até promover uma desumanização das pessoas com um determinado rótulo para depois promover racismo, xenofobia e até genocídios.

 

Com o objetivo de criar uma contraposição a estes aspectos violentos das linguagens utilizadas no mundo, Marshall Rosenberg trouxe a ideia da Comunicação Não Violenta. Muito mais do que uma forma alternativa de comunicação, trata-se de uma forma nova de viver. Uma forma que nos convida a olhar para o que está vivo em cada indivíduo, momento a momento, de forma fluida e impermanente, observando seus sentimentos e necessidades em cada circunstância.

Segundo os conceitos da Comunicação Não Violenta, tudo aquilo que fazemos é para suprir alguma necessidade humana universal. Quando uma necessidade nossa é atendida, temos um determinado tipo de sentimento. Quando uma necessidade nossa não é atendida, temos um tipo de sentimento potencialmente diferente. A ideia principal é promovermos interações que busquem dialogar sobre como podemos encontrar juntos as estratégias (ações) que possam suprir a necessidade de todos os envolvidos. Na prática, trata-se de uma linguagem repleta de um nível primoroso de escuta empática capaz de identificar o que está vivo em quem é escutado. Por exemplo, imagine que você está conversando com uma pessoa a respeito de uma decisão tomada na esfera familiar ou no trabalho. Neste momento da conversa, imagine que ela diga algo como: “Nossa! Que decisão mais estúpida! Um total absurdo!”. Ao se deparar com uma cena assim, você poderia utilizar uma fala apoiada na Comunicação Não Violenta, talvez dizendo algo como: “Puxa! Vejo que você está muito incomodada com a decisão, talvez por ver nela uma falta de sentido ou coerência. É isto mesmo?”

Na prática, trata-se de uma linguagem repleta de um nível primoroso de escuta empática capaz de identificar o que está vivo em quem é escutado.

Ao promover esta interlocução, você estaria entregando para a pessoa um belo presente: a sua escuta. A fala é uma tentativa de demonstrar que você está conectado com o que está vivo na outra pessoa, por meio de uma linguagem que explora o sentimento presente (incomodada) e a necessidade não atendida que provoca este sentimento (sentido e/ou coerência).

Mas como uma fala como esta pode ajudar?

Ela ajuda a criar um ambiente aberto para o diálogo. A partir de falas como esta, podemos criar um espaço onde o outro se sente verdadeiramente escutado. Quando uma pessoa se sente escutada ela se abre e, a partir deste momento, a conversa poderá fluir para a busca de alternativas e soluções.

A Comunicação Não Violenta é ser uma prática muito útil para que a humanidade possa interagir com escuta empática, criando um espírito renovada de colaboração e diálogo. Nas palavras de Marshall Rosenberg, “a Comunicação Não Violenta é um modo de ser, de pensar e de viver. Seu propósito é inspirar conexões sinceras entre as pessoas de maneira que as necessidades de todos sejam atendidas por meio da doação compassiva”.